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15 de mai. de 2020

João Bosco by kbsa + Aldir Blanc - Vida Noturna [2005]

Capa do Álbum " João Bosco by Kbsa" Arte: Carybé

Capa do Álbum " Vida Noturna" 

A postagem hoje é em homenagem a uma das maiores parcerias da música popular brasileira: João Bosco e Aldir Blanc, sendo principalmente pela partida de Aldir, que nos deixou há poucos dias vítima de Covid-19. Grande tristeza para a música brasileira e para o Brasil. Neste momento, como disse Dr. Rosinha "...as frases podem ser resultados de sentimentos, mas jamais refletirá todo o sentimento. O sentimento é e sempre será sempre maior que a capacidade de escrever...sou incapaz de passar o que sinto. Difícil escrever, fácil chorar".
Assim, vamos homenagear o mestre com música: Vida Noturna [2005] é um disco emocionante, maravilhoso, poético e muito sincero. Um dos poucos momentos que vemos Aldir Blanc cantando, claro, com a participação dos amigos João Bosco e Moacyr Luz, dentre outros. Sensacional!!!
Também disponibilizo a espetacular coletânea pessoal "João Bosco by Kbsa" com 22 canções clássicas do grande artista entre os anos de 1973 a 1986. Um monte de sucessos, vários deles com Aldir, em uma parceria de botar fogo em qualquer avenida, com clássicos atemporais como "O Bêbado e Equilibrista", "Kid Cavaquinho", "De frente pro Crime", "O Ronco da Cuíca", "O Mestre Sala dos Mares", "Corsário", "Incompatibilidade de Gênios" e outros. 
Viva Aldir Blanc! Suas canções são eternas! Viva João Bosco!
Precisamos de mais músicos do que de soldados!
Munição Sonora Já!

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4 de mai. de 2020

Os Figurantes


Arte: Bernardes Paixão

Ser figurante é ser um nada. Na arte é como um velho mendigo na rua. Invisível. Como este, tem sempre ao seu lado um fiel cãozinho de guarda que o acompanha na jornadas figurantes. Os figurantes são como trabalhadores em cemitérios de navios ou de homens, bem como, garimpeiros nas profundezas da floresta. E sem figurantes, como seria a arte, a vida e até a morte?
Gosto de lembrar do Carlos, amigo figurante que me trouxe pra cá, pra ser figurinista das produções artísticas da Companhia. Conheci o Carlos em um jogo na baixada news. Já estou neste ofício há mais de 12 anos. Carlos ficou bem mais que eu, acho que uns 30. Quanto mais velhos os figurantes, menores oportunidades, até a troca inevitável por veias novas, sem o risco de adoecer ou mesmo não vir ao trabalho. Carlos passou a vida inteira sendo figurante. Ninguém sabe a vida que o Carlos tinha: morava no morro dos perdizes, o mais barra pesada e o mais esquecido dos morros do Brasil. Saia cedo de seu casebre, descia sorrindo a baixada como se fosse o escolhido para ser o protagonista da novela, pulava a viela de esgoto próximo a avenida central, cumprimentava Dona Celina, benzedeira da comunidade e esperava o primeiro de uma saga de 4 ônibus, até chegar no local/estúdio de gravação. Lembro do dia em que ele, em um almoço comigo, me disse: "...a gente tão perto de pessoas tão famosas e ricas, conhecidas até internacionalmente, figuras carimbadas em revistas e canais de televisão...outro dia vi a matéria do Carlos Zappa ( ator que ficava próximo nas suas figurações) em que mostrava a mansão e o carro importado dele lá no Morumbi...é muito estranho, pra não dizer outra coisa, eu tão perto do Carlos e ele tão perto de mim aqui no trabalho, mas tão distantes na vida". Carlos Zappa não nota nem filho, muito menos você - dizia pra ele.
Depois de alguns anos Carlos foi dispensado por justa causa (incompreensível), sem direitos diante do tempo de serviço, retirado por seguranças da companhia no mesmo dia desta decisão, humilhado na saída como um fantasma que há décadas apresentava sua carteirinha figurativa na entrada do salão.
Durante dias, depois da decisão, ainda descia o morro da mesma maneira: feliz e animado, pulando esgotos, cumprimentando a benzedeira, pegando 4 ônibus até a chegada na companhia, onde esperava ser de novo aceito, mas era proibido de adentrar, ficando como um cachorro dengoso chorando em frente ao portão.
Carlos, o do Morro, foi ser figurante no céu ao se jogar na frente do carro importado de Carlos Zappa, quando este saia de um dia de gravações. Foi a primeira vez que ele havia ido com o luxuoso importado para o trabalho. Testemunhas que viram o acidente disseram que a vítima se jogou a frente do carro e que acenava com as mãos como um velho conhecido exilado. Outros figurantes se juntavam ao pé do corpo de Carlos, enquanto o ator avisava aos organizadores do evento publicitário, que começaria em poucos minutos, o ocorrido.  Ao ver amassado o capô do carro, indagou ao morto: maldito transeunte!!
(Leo Canaã)

23 de abr. de 2020

Só São Jorge Pode Unir o Brasil

Arte: Heitor Yida, Ligia Jeon e Adriana Komur

"Só São Jorge pode unir o Brasil
Só São Jorge une todo mundo:
O pasteleiro, professor universitário, motorista de ônibus e o banqueiro
A empregada, artista de rua, fundamentalista e macumbeiro
Só São Jorge pode juntar o Brasil
Só São Jorge é forte o bastante
Para juntar o traficante, o almirante, o gari e a modelo estonteante
O estelionatário, o papa, o médico, milicianos e ambulantes
Só São Jorge pode colar o Brasil
Só São Jorge para salvar o Rio de Janeiro
Só São Jorge une o policial e o suspeito, que rezam ao mesmo instante e do mesmo jeito:
“...Para meus inimigos tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem” ou “nem pensamentos possam ter para me fazer mal”
Só São Jorge une o filósofo, o sequestrador, o flanelinha e o industrial
Só São Jorge para unir o negro, o branco, a esquerda, o centro, a direita, sul, norte, cidade inteira
Só São Jorge, Ogum Guerreiro, 
Com sua coragem e esperança pode unir as diferenças e o povo brasileiro."

(Leo Canaã)
Comemoração ao Dia do Santo Guerreiro em 2020. Inspirado em texto de Anderson França "Em 2020, o dia de São Jorge vai ser uma chance para o dragão", Folha de São Paulo - 21/04/2020.

13 de abr. de 2020

Necrópole Tropical

Homem vende caixão no meio da rua em Guayaquil - Equador. Reuters, 10 Abril de 2020. Foto: Vicente Gaibor Del Pino


"...Não adianta fingirmos normalidade no meio disso. A morte chegou e está instalada entre nós. Teremos de aprender a como sair..."
(Solange Rodriguez Pappe)

5 de abr. de 2020

Pink Floyd Obscured by Kbsa

Foto do CD: Charlie Hamilton

O Pink Floyd foi uma das bandas de rock mais revolucionárias e populares do mundo, com uma infinidade de músicas incríveis na sua discografia. Nesta coletânea pessoal, priorizamos 14 sons menos conhecidos, não menos sensacionais que os grandes hits da banda, do período de 1969 a 1978. 
Munição Sonora Já!

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22 de mar. de 2020

No Meio dos Flagelos

"... o que se aprende no meio dos flagelos: que há nos homens mais coisas a admirar que coisas a desprezar"
Albert Camus - A Peste.


17 de mar. de 2020

Cavaleiros do Inferno II

Capa do CD "Cavaleiros do Inferno II"

O melhor do Folk/Country/Southern Rock está aqui na segunda coletânea pessoal "Cavaleiros do Inferno II". São sensacionais 18 passagens de bandas e artistas que apavoram no estilo. Estão presentes: Crhis Cornell, Willie Nelson, Cody Jinks, The Devil Makes Three, Anders Osborne, Graham Nash, Ruston Kelly & Kate Musgrates, Nathaniel Rateliff, The Fox and The Crow, Will Hoge, Sandy Ross, The Record Company, Chris Robinson Brotherhood, The Jayhawks e My Morning Jacket.
Munição Sonora Já!!!
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6 de mar. de 2020

J J Cale [XXI]

Capa do Album: Florian Schulz

Grande J J Cale!!! O cara ficou conhecido, primeiramente, pelas músicas que fez e que foram gravadas e se tornaram hits com outros artistas: com seu amigo Eric Clapton ("Cocaine", "After Midnight"), além de "Call me the Breeze" com  o supergrupo Lynyrd Skynyrd. Talvez um pouco desmerecido, J. J Cale fez ótimos albúns como " Naturally - 1971" e "Troubador - 1976".Aqui disponibilizo a coletânea pessoal XXI com 14 músicas  contemporâneas entre os anos de 2000 a 2011 que mostram a grande máquina de fazer música que o cara era.  J.J nos deixou em 2013, aos 71 anos. Sinceramente, acho o som demais!
Viva J J Cale!
Precisamos de mais músicos do que de soldados!
Munição Sonora Já!!!

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29 de fev. de 2020

Bem Blusão Bão #3

Capa do CD

Chegando com a coletânea pessoal "Bem Blusão Bão" em sua terceira edição com 18 sonzeiras de  artistas novos e consagrados tocando o melhor do Blues na atualidade. 
Estão presentes na coletânea: Sandy Ross, Simon Kinny-Lewis, Van Morrison, Jamell Richardson, Joe Percy, Jerimiah Marques, Cristone "Kingfish" Ingram, B.B & The Blues Schakes, The Nick Moss Band, Eric Clapton, John Hiatt, Richard Finley e Watermelon Slim.
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21 de fev. de 2020

Púrpura Íntegra

Foto: N/A

Em um início de divã, Fátima retira do bolso da calça um pedaço de papel e inclinando a cabeça levemente para a esquerda, onde estava seu médico terapeuta, diz secamente – “Hoje vou ler meu escrito diário e será só isso a sessão”. O médico, sem nada dizer, olhando para baixo, balança a cabeça positivamente à paciente, que imediatamente começa a leitura.

“Queria estudar, enlouqueci. Queria amar, sofri. Queria voar, submergi. Que quentura ainda existe nessas veias? Que calor, oh senhor, será capaz de iluminar as trevas e os curdos? Quais os planos de conquista, acumulação para amanhã?
Queria sonhar, violentaram-me e sorri. Queria tocar o céu, desisti de Deus. E agora, púrpura, já consigo sair de casa, escovar os dentes, responder aos recados de amigos e vendedores, pegar no sono, ver os infernais, passear por Paraisópolis e trocar três contos com qualquer alma viva ou morta.
Mas, que aventura pode existir depois da curva da monotonia? Logo advém de graça, como uma cobertura de um sorvete, o pavor, oh senhor, o pavor da dúvida, de ser capaz de relativizar mais uma vez ás pressas, quitar os juros de empréstimo para usar minha HP-12 C, as metas a serem dominadas e reembolsadas em minha conta e que não levarei para minha cova e uma gama enorme de pessoas sofridas (e muito) pelas calçadas do mundo.
Queria tocar o céu, e agora púrpura, feliz por levantar da cama, comer ovos mexidos, o café enviado de minas, o cigarro aceso, o rapé, o cabaré e a grana do contrato... tudo de forma objetiva, escalonaria e obsessiva: no melhor jeito de ser humano!
Queria encontrar os olhos do meu médico, nestes 5 anos em que toda a semana, uma vez por semana, tenho que pegar três ônibus e cruzar esta cidade maldita, na esperança ridícula de que algum dia iremos ter o encontro mágico dos olhos! Quem precisa de tratamento? Estou curada, isso mesmo, já estou curada. Já consigo sorrir e ser cordial com todos, principalmente com meus agressores. Não tem uma frase mais ou menos assim, de que, quem é feliz é aquele que engana a si mesmo?”.

Ao terminar a leitura, Fátima se levantou, olhou predestinadamente para a porta sem atentar-se para o médico, abriu a mesma sem fechar, deixando os raios do sol de primavera adentrar com sua tonalidade lilás pela vidraça cristalina da antessala, enquanto o médico, preso a um caderno ou uma leitura em sua cadeira confortável, mexia rapidamente os óculos e dava um leve sorriso, com a cabeça inclinada para baixo, atento ao que via ou lia, até que pelo aparelho telefônico, falou para sua assistente: Quem é o próximo?                                                                                                             
 (LEO CANAÃ)                                                 

13 de fev. de 2020

Kiko Dinucci - Rastilho [2020]

Capa do CD


Fazia um tempão que eu tava a fim de fazer um disco dedicado ao violão.

Na infância, explorei como brinquedo. No começo da adolescência, com o violão remendado com tiras de durex, tentei nas mais variadas afinações reproduzir riffs de rock pesado. No fim da adolescência, nas rodas de samba onde alguém pedia um ré menor e saia cantando algo que eu nunca tinha tocado na vida, me forcei a encontrar cadências e intervalos no susto. O violão chegou primeiro e sempre me acompanhou.

Meu sonho era ser um violonista de choro, me amarrava nos bordões, mas, por conta de limitação técnica, comecei a procurar minha própria onda, um modo de continuar tocando. Apesar de gostar muito desta tradição do violão brasileiro, foi nos trabalhos afros do Baden Powell e nos violões de Dorival Caymmi, João Bosco, Jorge Ben, Rosinha de Valença e Gilberto Gil que pude vislumbrar uma maneira diferente de aplicar o instrumento ao formato canção.

Minha procura pelo violão sempre teve um caminho ligado à rítmica, principalmente na mão direita, que geralmente arpeja o instrumento ou faz os ataques. A ideia sempre foi tocar o violão como um instrumento de percussão. O que o violão do samba e do choro nos propõe, dividindo as cordas graves das cordas agudas, me ajudou muito em torno da visão mais polirrítmica.  Quase sempre, quando crio algo no violão, estão presentes as linhas de baixo e os contrapontos agudos.

A vivência na cena punk rock/hardcore paulista dos anos 90, no samba e nas atividades religiosas no Ilê Leuiwyato, dirigido pela sacerdotisa Iya Sandra Medeiros Epega, moldaram de alguma maneira esse violão que toco hoje, a música se procura também no chão que a gente percorre, nas pessoas, nas poeiras dos caminhos, não só no mundo artístico.

Rastilho é um disco de violão, nele o instrumento sobrepõe tudo, todas as vozes, todas as letras, quem canta é a madeira. (Por Kiko Dinucci)

São 10 canções fantásticas apenas com voz e violão!
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3 de fev. de 2020

Solidão

Pintura: Lesley Oldaker

Desesperança das desesperanças...
Última e triste luz de uma alma em treva...
— A vida é um sonho vão que a vida leva
Cheio de dores tristemente mansas.

— É mais belo o fulgor do céu que neva
Que os esplendores fortes das bonanças
Mais humano é o desejo que nos ceva
Que as gargalhadas claras das crianças.

Eu sigo o meu caminho incompreendido
Sem crença e sem amor, como um perdido
Na certeza cruel que nada importa.

Às vezes vem cantando um passarinho
Mas passa. E eu vou seguindo o meu caminho
Na tristeza sem fim de uma alma morta.´

(Vinícius de Moraes, Solidão, Rio de Janeiro 1933)

11 de jan. de 2020

RUSH [7484]

Foto do CD: Joanna Malukiewicz - Canaã - MG

A postagem de hoje é em homenagem a banda RUSH e Neil Peart (um dos maiores bateristas de rock de todos os tempos que nos deixou no dia 07/01 vítima de câncer cerebral). A frente das baquetas e das letras da lendária banda, Neil deixou sua marca inigualável na música. O Rush, com certeza, está na nata do rock mundial, ao mesclar várias vertentes como hard rock, Rock Progressivo e a New Wave sem perder sua identidade e sem se acomodar como a maioria dos músicos consagrados fazem. 
Esta espetacular coletânea pessoal "7484" traz 19 músicas do melhor da banda entre os anos de 1974 a 1984, mostrando toda a criatividade e potência do power trio composto por Alex Lifeson (Guitarra), Geddy Lee (baixo e vocal), além de Neil.
Como curiosidade, Neil lançou um livro "A estrada da cura" que conta a sua saga ao sair de motocicleta no final dos anos 90 e andar mais de 90 mil quilômetros pela América do Norte e Central, após a perda de sua única filha e esposa no mesmo ano, como uma forma de preencher o vazio e procurar algum sentido na vida. Fenomenal!
Precisamos de mais músicos do que de soldados!
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12 de dez. de 2019

Albert King by Kbsa

Arte do Álbum: Nacho Lopez

O termo "King" no Blues tem peso. Três grandes lendas do gênero utilizavam(B.B. King, Freddy King e Albert King). Albert King é a maior influência de Blues na minha vida, seguido por Muddy Waters, Buddy Guy, Howlin' Wolf, Eric Clapton e John Mayall. Albert foi considerado o 13º melhor guitarrista de todos os tempos pela revista Rolling Stone, tendo influenciado milhares pelo mundo, sendo alguns famosos como Hendrix, Clapton e Steve Ray Vaughan (Só estes?). Albert se tornou conhecido quando em 1967 lançou seu lendário álbum "Born under a bad Sign", altamente recomendado.
Esta coletânea pessoal espetacular destaca 21 músicas entre os anos de 1966 a 1980, demonstrando o gigante lendário que Albert sempre será. 
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3 de dez. de 2019

Desespero da Piedade

Foto: Edu Leporo

Meu senhor, tende piedade dos que andam de bonde
E sonham no longo percurso com automóveis, apartamentos...
Mas tende piedade também dos que andam de automóvel
Quando enfrentam a cidade movediça de sonâmbulos, na direção.

Tende piedade das pequenas famílias suburbanas
E em particular dos adolescentes que se embebedam de domingos
Mas tende mais piedade ainda de dois elegantes que passam
E sem saber inventam a doutrina do pão e da guilhotina.

Tende muita piedade do mocinho franzino, três cruzes, poeta
Que só tem de seu as costeletas e a namorada pequenina
Mas tende mais piedade ainda do impávido forte colosso do esporte
E que se encaminha lutando, remando, nadando para a morte.

Tende imensa piedade dos músicos dos cafés e casas de chá
Que são virtuoses da própria tristeza e solidão
Mas tende piedade também dos que buscam silêncio
E súbito se abate sobre eles uma ária da Tosca.

Não esqueçais também em vossa piedade os pobres que enriqueceram
E para quem o suicídio ainda é a mais doce solução
Mas tende realmente piedade dos ricos que empobreceram
E tornam-se heróicos e à santa pobreza dão um ar de grandeza.

Tende infinita piedade dos vendedores de passarinhos
Que em suas alminhas claras deixam a lágrima e a incompreensão
E tende piedade também, menor embora, dos vendedores de balcão
Que amam as freguesas e saem de noite, quem sabe onde vão...

Tende piedade dos barbeiros em geral, e dos cabeleireiros
Que se efeminam por profissão mas que são humildes nas suas carícias 
Mas tende mais piedade ainda dos que cortam o cabelo:
Que espera, que angústia, que indigno, meu Deus!

Tende piedade dos sapateiros e caixeiros de sapataria
Que lembram madalenas arrependidas pedindo piedade pelos sapatos
Mas lembrai-vos também dos que se calçam de novo
Nada pior que um sapato apertado, Senhor Deus.

Tende piedade dos homens úteis como os dentistas
Que sofrem de utilidade e vivem para fazer sofrer
Mas tende mais piedade dos veterinários e práticos de farmácia
Que muito eles gostariam de ser médicos, Senhor.

Tende piedade dos homens públicos e em particular dos políticos
Pela sua fala fácil, olhar brilhante e segurança dos gestos de mão
Mas tende mais piedade ainda dos seus criados, próximos e parentes
Fazei, Senhor, com que deles não saiam políticos também.

E no longo capítulo das mulheres, Senhor, tende piedade das mulheres 
Castigai minha alma, mas tende piedade das mulheres
Enlouquecei meu espírito, mas tende piedade das mulheres
Ulcerai minha carne, mas tende piedade das mulheres!

Tende piedade da moça feia que serve na vida
De casa, comida e roupa lavada da moça bonita
Mas tende mais piedade ainda da moça bonita
Que o homem molesta - que o homem não presta, não presta, meu Deus!

Tende piedade das moças pequenas das ruas transversais
Que de apoio na vida só têm Santa Janela da Consolação
E sonham exaltadas nos quartos humildes
Os olhos perdidos e o seio na mão.

Tende piedade da mulher no primeiro coito
Onde se cria a primeira alegria da Criação
E onde se consuma a tragédia dos anjos
E onde a morte encontra a vida em desintegração.

Tende piedade da mulher no instante do parto
Onde ela é como a água explodindo em convulsão
Onde ela é como a terra vomitando cólera
Onde ela é como a lua parindo desilusão.

Tende piedade das mulheres chamadas desquitadas
Porque nelas se refaz misteriosamente a virgindade
Mas tende piedade também das mulheres casadas
Que se sacrificam e se simplificam a troco de nada.

Tende piedade, Senhor, das mulheres chamadas vagabundas
Que são desgraçadas e são exploradas e são infecundas
Mas que vendem barato muito instante de esquecimento
E em paga o homem mata com a navalha, com o fogo, com o veneno.

Tende piedade, Senhor, das primeiras namoradas
De corpo hermético e coração patético
Que saem à rua felizes mas que sempre entram desgraçada
Que se crêem vestidas mas que em verdade vivem nuas.

Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres
Que ninguém mais merece tanto amor e amizade
Que ninguém mais deseja tanto poesia e sinceridade
Que ninguém mais precisa tanto de alegria e serenidade.

Tende infinita piedade delas, Senhor, que são puras
Que são crianças e são trágicas e são belas
Que caminham ao sopro dos ventos e que pecam
E que têm a única emoção da vida nelas.

Tende piedade delas, Senhor, que uma me disse
Ter piedade de si mesma e de sua louca mocidade
E outra, à simples emoção do amor piedoso
Delirava e se desfazia em gozos de amor de carne.

Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas
A vida fere mais fundo e mais fecundo
E o sexo está nelas, e o mundo está nelas
E a loucura reside nesse mundo.

Tende piedade, Senhor, das santas mulheres
Dos meninos velhos, dos homens humilhados - sede enfim
Piedoso com todos, que tudo merece piedade
E se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim!

(VINÍCIUS DE MORAES)

27 de nov. de 2019

Nina Simone by Kbsa

Arte da Capa: João Pinheiro

Uma das maiores cantoras de todos os tempos, chega aqui para elevar o nível: Nina Simone! Pianista, cantora, compositora e ativista dos direitos civis e dos negros americanos. Nina deixou sua influencia na música com sua voz marcante, seus diversos estilos (Jazz, Blues, Pop, folk, música clássica, R&B, Funk e Soul) e a intensidade no palco e na vida. Em plena Guerra do Vietnã, ao se apresentar em um evento militar em 1971 nos EUA, Nina deu voz àqueles contrários ao conflito e deflagrou um momento icônico: cantou um poema em que Deus é considerado um assassino, após 18 minutos de "My Sweet Lord" de George Harrison. 
Esta coletânea pessoal perpassa pelo período mais produtivo da cantora, entre os anos de 1964 a 1980,e a cada faixa das 19 presentes na coletânea, um oceano musical diverso e intenso promove uma experiência profunda de ritmos e sons inigualáveis.
Precisamos de mais músicos do que de soldados!
Viva Nina Simone!
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12 de nov. de 2019

Carta do Refugiado às Nações

Foto: Yannis Behrakis


Sou um ser e não uma coisa
Ainda que eu fosse uma coisa,                 
não seria a de sem valor!
Sou movido a deixar a minha terra
Aquela terra de origem pátria amada,
que um dia me viu nascer,
me viu crescer,
me viu sorrir,
Sorrir para a vida, 
– Vida, o grandioso presente de Deus para as nações!
Hoje…
estou aqui
amanhã acolá,
Sou um barco movido a vela
forçado pela força do vento, pra chegar ao destino!
Outra hora…
Sou uma andorinha,
movido pela estação a procura de melhores condições de vida!
E p’ra me moverem, 
São vocês que praticam as guerras
Fazendo prevalecer o ditado: 
NA LUTA DE 2 ELEFANTES, 
QUEM PAGA COM AS VIDAS, SÃO AS GRAMAS OU O CAPIM!
São nossas vidas jogadas ao nada,
Somos barrados nas fronteiras…
como se tivêssemos cometidos crimes!
Uns cometem, pagamos nós!
Matam-nos,
Hostilizam-nos, 
Mortos, jogam-nos como lixo feito nada
Tudo porque, um diz quem manda aqui sou eu,
E outro do outro lado responde, a terra é minha!
E tudo resulta em uma colisão, e quem morre sou eu!
OH CREDO, A TERRA É DE DEUS!!!
Hoje…
Venho aqui, porque não tenho terra!
Amanhã vou ali também não tenho terra!
Tudo é terra!
O Nativo diz:
Não tens aqui o direito,
Tu que me vens tirar o trabalho…
então sou submetido ao trabalho escravo, 
porque quero viver a vida!
Ó Céus!
Oh, credo!
Só quero viver a vida
Quero liberdade
Busco a justiça
Quero também pelo menos uma única oportunidade
Para que eu sobreviva e mitigue a minha sede!
Tenho fome, quero roupa, quero abrigo,
Só quero viver a vida!
Repito: NÃO TENHO TERRA, TUDO É TERRA!
Tenho uma vida
Que também merece ser vivida
Um presente de Deus eterno para todas as nações!
Sou um barco à vela
À busca de um destino
Por favor, me respeitem, só quero viver a vida!
(Moisés Antônio, Poeta Angolano)

5 de nov. de 2019

Só Ouvindo A Day In The Life

Pintura: Claude Monet - "O Nascer do Sol" 1872.

"Os passos errados, repetitivos
Inválidos sobre a brisa da madrugada
As lutas que viraram covas
E os dias que ficaram sombrios
Só ouvindo A Day In the Life*

Os amores deixados por coisas
Pedras preciosas dos desiludidos
As ideologias que viraram fronteiras
E os espinhos que se tornaram armaduras
Só ouvindo A Day in the Life
Só, ouvindo A Day in the Life"
(Leo Canãa)

* Beatles - última música do álbum "Sgt. Peppers..." de 1967.

31 de out. de 2019

Talking Heads by Kbsa


Capa do Album: Crhis Leib

Durante anos achei que o Talking Heads era uma banda de uma música só. "Psycho Killer" é um mega hit do rock. Mas, a banda liderada por David Byrne (viciado em música brasileira) é muito mais! Com um som inovador, mesclando o rock com o new wave e world music, a banda teve seus lançamentos autorais entre 1977 a 1991 e influenciou muitas bandas e artistas brasileiros nos anos 80. Esta coletânea tem 19 músicas do melhor do repertorio.
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